A ausência de diálogo prévio com gestores municipais e entidades representativas coloca em xeque a legitimidade da Conferência Estadual do Esporte e acende um alerta sobre o método adotado pelo Estado na condução das políticas públicas esportivas.
Por Paulo Pinto / Global Sports
Curitiba, 4 de fevereiro de 2026
A forma como a Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo anunciou a realização da Conferência Estadual do Esporte acendeu um sinal de alerta em setores estratégicos da gestão esportiva paulista. Embora a iniciativa, em si, seja reconhecida como necessária e potencialmente relevante, a condução do processo levantou questionamentos sobre método, legitimidade e efetiva capacidade de construção coletiva de um evento que deveria refletir a pluralidade do esporte no Estado.
Dirigentes ouvidos pela reportagem avaliam que uma conferência dessa magnitude não pode ser concebida de maneira unilateral. Ao contrário, exige como etapa inicial um processo estruturado de escuta, com convocação formal das entidades que atuam diretamente na administração, no fomento e na execução das políticas públicas esportivas nos municípios paulistas.
Quem foi ouvido?
Entre os principais pontos de inquietação está a ausência de informações claras sobre como a Conferência foi pensada e planejada. Questões elementares permanecem sem resposta: quem foi ouvido até aqui? Quais segmentos e setores da multifacetada atividade esportiva paulista serão priorizados? Com base na expertise de quais atores institucionais o evento está sendo desenhado?
Para dirigentes municipais, a forma como a deliberação veio a público — sem reuniões preparatórias amplas e sem debate prévio — contraria práticas consolidadas de governança esportiva. Um tema estratégico dessa envergadura exige planejamento, definição de pauta e participação efetiva dos diferentes segmentos antes de qualquer anúncio formal.
Método em xeque
A crítica central não se dirige à ideia de uma Conferência Estadual do Esporte, mas ao método adotado para sua construção. Ao excluir, ainda que involuntariamente, entidades representativas do sistema esportivo paulista do processo inicial, a iniciativa perde força política e fragiliza sua legitimidade.
Na avaliação institucional, conferências não se constroem por comunicação unilateral, mas por pactuação. São espaços de síntese, não de imposição. Quando o diálogo não antecede a decisão, o risco é produzir um evento desconectado da realidade dos municípios e das estruturas que sustentam o esporte no dia a dia.
O papel do CREF4/SP
Outro ponto que suscita debate é o papel atribuído ao Conselho Regional de Educação Física do Estado de São Paulo (CREF4/SP) no processo. Embora se trate de uma autarquia relevante, com função legal voltada à fiscalização profissional, dirigentes questionam se cabe a esse órgão assumir protagonismo em um processo que deveria ser conduzido de forma ampla, interinstitucional e plural.
A construção de uma Conferência Estadual do Esporte pressupõe a escuta de gestores públicos, entidades de administração do desporto, sindicatos, associações, universidades e organizações comunitárias. Nenhuma instituição, isoladamente, detém legitimidade para representar a complexidade do ecossistema esportivo paulista.
O agravante do calendário
As dúvidas se intensificam diante do contexto temporal. O ano de 2026 será marcado por processos eleitorais que, tradicionalmente, suspendem ou reduzem agendas institucionais a partir do segundo semestre. Soma-se a isso a realização da Copa do Mundo de Futebol, maior evento esportivo do planeta, que mobiliza atenções, recursos e estruturas.

Nesse cenário, dirigentes indagam se há condições reais de planejamento, execução e encaminhamento consistente dos resultados da Conferência. Mais do que realizar o evento, é preciso garantir que suas deliberações tenham efetividade institucional e perenidade, para além do calendário político e das circunstâncias conjunturais.
O que o esporte espera?
O esporte paulista não questiona a necessidade de debate. Questiona a ausência de método. Conferências são instrumentos de construção coletiva, não atos administrativos isolados. Para cumprir seu papel, precisam nascer do diálogo, do planejamento e da participação ampla dos segmentos que, de fato, fazem o esporte acontecer em todas as regiões do Estado.
A expectativa institucional é que o processo seja reavaliado e, se mantido, reiniciado sob bases mais sólidas, transparentes e inclusivas. Só assim a Conferência Estadual do Esporte poderá cumprir aquilo que dela se espera: ser um espaço legítimo de escuta, formulação e fortalecimento das políticas públicas esportivas no Estado de São Paulo.
Debate que não aconteceu
Dirigentes de diferentes segmentos do esporte paulista, ouvidos pela reportagem e que preferiram não se identificar por razões evidentes, manifestaram perplexidade com a condução do processo que antecedeu o anúncio da Conferência Estadual do Esporte. Para eles, a ausência de diálogo prévio não é apenas um erro de método, mas um indício preocupante de fragilidade conceitual.
Um dos questionamentos mais recorrentes diz respeito à própria essência do evento. Segundo esses dirigentes, toda conferência séria se estrutura a partir de eixos temáticos claros, capazes de orientar o debate e garantir participação qualificada. “Quais são os eixos dessa conferência? Quem os definiu? Com base em que diagnóstico?”, indagou um deles, ao apontar que a urgência na realização do evento levanta dúvidas legítimas sobre interesses não explicitados e motivações que permanecem fora do debate público.
Outro ponto levantado por representantes de segmentos distintos do esporte diz respeito às ausências institucionais. Causou estranheza, por exemplo, o fato de o CREF4/SP surgir como principal parceiro da Secretaria, enquanto outras entidades técnicas e representativas não foram sequer consultadas.
“Por que o Conselho Regional de Administração, que reúne gestores esportivos altamente qualificados, não participou do processo? Por que a Associação Paulista de Imprensa Esportiva não foi convidada? E a Comissão de Esporte da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, por que não foi ouvida?”, questionou um dirigente.
O mesmo interlocutor chamou atenção, ainda, para a ausência da Escola de Educação Física da Polícia Militar do Estado de São Paulo (EEFPM), tradicional instituição formadora e histórica parceira do próprio CREF4/SP. “Ignorar a EEFPM revela não apenas falha de articulação, mas desconhecimento — ou desprezo — por atores centrais na estrutura da formação e da política esportiva paulista”, concluiu.
As críticas se aprofundam quando o debate se desloca para o conteúdo que deixou de ser priorizado. Na avaliação desses dirigentes, havia temas muito mais urgentes e estruturantes que deveriam estar no centro de qualquer discussão ampla e democrática, como a situação caótica dos Jogos Regionais e dos Jogos Abertos do Interior. Com quase um século de existência, essas competições já foram a principal mola propulsora do esporte paulista, mas hoje enfrentam um processo acelerado de esvaziamento, marcado pela desistência crescente de municípios e pela perda de relevância, consequência direta — segundo os entrevistados — da má condução e da ausência de planejamento da Secretaria de Esporte do Estado de São Paulo.
“Ali estão as entidades de administração das modalidades, os clubes que investem, as secretarias municipais que sustentam a base esportiva e milhares de cidadãos envolvidos direta ou indiretamente. Ignorar esse debate é ignorar o coração do esporte paulista”, resumiu um dos dirigentes.
Por fim, ao se buscar compreender o propósito mais amplo da conferência, surge uma indagação adicional: caso um dos eixos pretendidos seja o de complexos, arenas e equipamentos esportivos, como justificar a ausência de órgãos técnicos fundamentais nesse tipo de discussão? “Onde está o CREA nesse debate?”, questionou outro interlocutor, ao apontar que decisões sobre infraestrutura esportiva exigem conhecimento técnico, planejamento e responsabilidade pública.
Planejamento zero
O questionamento ganha ainda mais peso quando se observa a agenda institucional recente da própria Secretaria de Esportes do Estado. No dia 2 de dezembro de 2025, o Conselho Estadual de Desporto realizou sua quarta e última reunião do ano, encontro oficialmente divulgado pela SESP como espaço destinado ao balanço do ano esportivo, à projeção do calendário de 2026 e à apresentação do novo coordenador-geral da pasta.
Em nenhum momento, segundo o registro público do encontro, houve menção à realização de uma Conferência Estadual do Esporte — iniciativa que, semanas depois, passaria a ser anunciada como prioridade da gestão. A ausência do tema em um fórum que, por definição, deveria concentrar o planejamento estratégico do esporte paulista levanta questionamentos legítimos sobre o momento, a forma e o processo de construção da proposta.
Dirigentes ouvidos pela reportagem indagam por que um evento dessa magnitude não foi apresentado, debatido ou sequer sinalizado no encerramento oficial do calendário esportivo de 2025. A lacuna reforça a percepção de que a decisão não resultou de um processo coletivo e estruturado, mas de uma deliberação posterior, tomada fora dos canais institucionais tradicionalmente destinados a esse tipo de discussão.
Pluralidade fragilizada
Para fins de registro institucional — e como elemento central da crítica aqui apresentada — a reportagem destaca que diversas entidades não participaram de qualquer etapa do processo, embora, pela natureza de suas atribuições, fossem atores indispensáveis em um debate dessa magnitude para o esporte paulista.
Entre as ausências, estão a Associação dos Secretários Municipais de Esporte do Estado de São Paulo (ASEMESP); a Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (ABMAQ), entidade que abriga uma câmara específica voltada à indústria de equipamentos esportivos e integra a estrutura da FIESP; o Sindicato das Entidades de Administração do Desporto no Estado de São Paulo (SEADESP); o Sindicato dos Profissionais de Educação Física de São Paulo e Região (SINPEFESP); a SAPESP; o SINTREPESP; o Sindicato dos Árbitros; representantes do Sistema S (SESI, SESC e SENAI); universidades; associações comunitárias, entre outros segmentos historicamente envolvidos na formulação, execução e avaliação das políticas públicas esportivas.

