Após a adoção em massa da inteligência artificial no esporte, 2026 se apresenta como o ano em que o setor precisará definir limites claros, equilibrando inovação com ética, desempenho com imprevisibilidade — e tecnologia com o fator humano.
Fonte Víctor García / Sportsin
Curitiba, 3 de janeiro de 2026
Após um ano marcado pela adoção em larga escala, a inteligência artificial impulsiona o esporte para uma nova fase de regulamentação e definição. Sua influência crescente na análise de desempenho, arbitragem e identificação de talentos levanta questões que vão além da tecnologia e alcançam o campo dos valores. Com a chegada de 2026, o desafio não é mais o que a IA pode alcançar, mas sim como o esporte escolherá reger seu papel, sem perder o elemento humano que equilibra justiça e emoção.
A inteligência artificial deixou de ser um horizonte promissor no esporte — passou a ser uma presença constante. Às vezes invisível, outras vezes desconfortavelmente evidente. Se 2025 serviu para normalizar seu uso, a pergunta agora muda de direção: o que será da IA no esporte em 2026? Até onde ela irá, e o que de fato será transformado?
“O risco não é que a IA erre, mas que acerte demais. Que o esporte deixe de ser um espaço de incerteza e se torne uma sucessão de probabilidades bem executadas.”
Em 2025, a IA deixou de ser uma novidade para se tornar uma ferramenta cotidiana. Não houve um único marco ou manchete que explicasse tudo, mas sim uma sequência de avanços discretos, porém decisivos: algoritmos mais precisos na análise de desempenho, sistemas preditivos cada vez mais refinados para prevenir lesões, automação quase total na geração de dados, estatísticas e conteúdo.
A inteligência artificial não mudou o esporte em si, mas transformou profundamente a forma como ele é observado, medido e interpretado.

Em muitos contextos, o salto não foi tecnológico, mas cultural. Treinadores, preparadores físicos, federações e até a mídia deixaram de questionar se deveriam usá-la — e passaram a discutir como utilizá-la sem abrir mão do julgamento humano. A IA passou a coexistir com a intuição, e não a substituí-la — pelo menos por enquanto.
O limite é ético, não técnico
Se algo ficou claro após 2025, é que o maior obstáculo para o avanço da inteligência artificial no esporte não é sua capacidade, mas sua legitimidade. Até que ponto é aceitável que um algoritmo influencie decisões esportivas? Onde termina a assistência e começa a vantagem desleal? Que dados podem ser usados — e quais não?
O debate já não gira em torno da capacidade de prever um pico de desempenho ou uma lesão, mas sim sobre quem controla essa informação. Sempre haverá clubes com mais recursos e federações com maior acesso tecnológico, o que tende a ampliar disparidades que o esporte vem tentando reduzir há décadas com base no fator humano.
2026, o ano das decisões
Se 2025 foi o ano da adoção, 2026 será o ano das decisões estruturais. É o momento de pensar em regulamentações, protocolos e limites claros — não para travar a inovação, mas para impedir que ela transborde. O esporte, por natureza, precisa de regras comuns para ser reconhecido como tal — e não pode perder o fator humano que o conecta à emoção, à sociedade e à imprevisibilidade.
A expectativa para este ano é que a IA avance sobre áreas antes protegidas: arbitragem em tempo real além do VAR, identificação de talentos baseada quase exclusivamente em modelos preditivos, ou ainda o planejamento de calendários otimizados para o público — e não para os atletas.
Isso não é ficção científica. É apenas o próximo passo, dado o ritmo da evolução.
Revolução ou dependência?
A grande pergunta já não é o que a inteligência artificial pode fazer — mas o que queremos que ela faça pelo esporte. Sim, ela pode melhorar a saúde dos atletas, prolongar carreiras, reduzir erros de arbitragem e enriquecer a experiência dos fãs. Mas também pode homogeneizar estilos, transformar o jogo em um produto excessivamente calculado e reduzir a margem para o inesperado — como ocorreu com a Fórmula 1 nos últimos anos, e que agora busca corrigir seus rumos com novas regras.
No fundo, a inteligência artificial funciona como um espelho do esporte contemporâneo. Reflete sua obsessão por desempenho, sua dependência de dados, sua busca por controle total de variáveis. A questão não é se a IA irá mais longe — porque ela irá. A questão é: o esporte saberá decidir até onde permitir sua entrada, sem perder aquilo que o torna humano, imprevisível, e justamente por isso, apaixonante?


