Entre o discurso e a realidade: La Porta expõe o descompasso da governança do COB em relação ao cotidiano das confederações brasileiras

Entre o discurso e a realidade: La Porta expõe o descompasso da governança do COB em relação ao cotidiano das confederações brasileiras

Capilarizar governança sem capilarizar recursos é transferir responsabilidade semtransferir meios.

Por Paulo Pinto / Global Sports
São Paulo, 17 de fevereiro de 2026

Em recente entrevista ao portal Máquina do Esporte, o presidente do Comitê Olímpico do Brasil (COB), Marco Antônio La Porta, defendeu um modelo de governança colegiada com participação decisória dos atletas e apontou como desafio a necessidade de “capilarizar” essa lógica para as confederações esportivas nacionais.

A fala, embora bem-intencionada, expõe um descolamento estrutural entre o discurso institucional do presidente do COB e a realidade cotidiana das confederações brasileiras.

Após assumir a presidência do COB há pouco mais de um ano, La Porta parece ter se distanciado do ambiente restritivo em que sobrevivem a maioria das confederações nacionais — cenário que ele próprio conhece, já que chegou ao comando do Comitê após presidir a Confederação Brasileira de Triathlon (CBTri). Trata-se de um sistema profundamente assimétrico, moldado por regras que concentram a maior parte dos recursos financeiros nas mãos do COB, redistribuídos de forma proporcional ao desempenho olímpico, ao rendimento das modalidades e a critérios de governança.

Na prática, esse modelo favorece amplamente as confederações bem-sucedidas nos Jogos Olímpicos, enquanto às entidades com menor desempenho resta apenas a subsistência institucional. Ainda assim, mesmo as confederações contempladas com maiores volumes de recursos operam sob severas restrições financeiras, o que inviabiliza a construção de projetos estruturantes e perenes e limita qualquer planejamento verdadeiramente audacioso. São entidades que funcionam com estruturas enxutas, equipes reduzidas e margens orçamentárias estreitas. Essa realidade é sistematicamente ignorada quando se fala, de forma abstrata, em ampliar instâncias políticas, criar comissões permanentes ou importar modelos de governança dissociados das condições materiais do esporte brasileiro.

A falsa simetria entre COB e confederações

Ao defender maior atuação das comissões de atletas nas confederações, Marco La Porta ignora — ou prefere ignorar — a profunda desigualdade estrutural que separa o Comitê Olímpico do Brasil das entidades que sustentam a base do sistema esportivo nacional. As confederações não dispõem de orçamento, pessoal nem margem operacional para sustentar instâncias políticas ampliadas nos moldes do COB. Tratar realidades tão distintas como se fossem equivalentes não é visão estratégica; é retórica desconectada do cotidiano das federações nacionais.

Diferentemente do COB, muitas confederações lutam para manter suas atividades-fim, cumprir calendários nacionais, viabilizar participações internacionais mínimas e garantir a própria sobrevivência institucional. Falar em estruturas paralelas de governança, comissões permanentes e agendas políticas ampliadas, nesse contexto, soa menos como proposta e mais como abstração.

Exigir que essas entidades reproduzam o modelo da Comissão de Atletas do COB sem oferecer condições materiais para isso não fortalece a governança. Ao contrário, transfere responsabilidades sem transferir meios — e amplia a distância entre o discurso institucional e a realidade do esporte brasileiro.

Poder paralelo institucionalizado

A história recente do Comitê Olímpico do Brasil desmonta, por si só, o discurso simplificador. A experiência do COB demonstra que ampliar a participação dos atletas, embora legítimo, não resolve os dilemas estruturais da governança esportiva nacional.

Paulo Wanderley Teixeira ampliou como nenhum outro dirigente, na história recente da entidade, o espaço político da Cacob — Comissão de Atletas do COB —, mas isso não impediu que sua gestão fosse politicamente isolada no momento crucial. O episódio reforça que a separação entre gestão e representação esportiva segue sendo um ponto sensível, mal resolvido e estruturalmente negligenciado no sistema olímpico brasileiro.

Em nossa avaliação, o que se criou ao longo desse processo foi um poder paralelo institucionalizado, desprovido de responsabilidade direta pela sustentabilidade do sistema, pela captação de recursos, pela gestão de passivos ou pela manutenção das estruturas esportivas. Gestão exige decisões impopulares, escolhas estratégicas e responsabilidade objetiva — atributos que não podem ser diluídos em instâncias políticas sem compromisso executivo.

Atleta é atleta gestor é gestor

Outro ponto negligenciado no discurso de La Porta é a natureza das comissões de atletas. Embora compostas também por ex-atletas, elas incluem atletas em plena atividade esportiva, cujo foco legítimo está no alto rendimento, na carreira competitiva e nos ciclos olímpicos. É ingênuo — ou conveniente — supor que esses atores tenham, simultaneamente, disponibilidade, isenção e horizonte estratégico para lidar com a complexidade da governança.

A política esportiva exige visão sistêmica, leitura orçamentária, articulação institucional e capacidade de negociação — atributos que não se adquirem automaticamente pelo mérito esportivo.

União não se impõe por decreto

Ao defender que “confederações e atletas não podem ser adversários”, Marco La Porta toca em um ponto correto, mas ignora a causa do conflito. A desconfiança não nasce da existência das confederações, mas da assimetria de poder, recursos e responsabilidades dentro do sistema olímpico brasileiro.

Sem enfrentar esse núcleo duro — concentração de recursos, dependência financeira e fragilidade estrutural das confederações — qualquer discurso de união soa vazio.

O risco do discurso fácil

A governança esportiva não se constrói por slogans, nem por replicação automática de modelos que funcionam apenas no topo da pirâmide. Enfatizamos, mais uma vez, que exigir maturidade política de entidades que operam em permanente estado de sobrevivência institucional é, no mínimo, um exercício de abstração.

Blindado por uma gestão anterior marcada por planejamento, responsabilidade administrativa e reconstrução institucional — que precisou, antes de tudo, estancar os efeitos de graves distorções herdadas de administrações passadas e, na sequência, conduzir o sistema olímpico brasileiro em meio a uma pandemia que quase inviabilizou a realização dos Jogos de Tóquio — o atual presidente do COB herdou uma entidade organizada, financeiramente estabilizada e esportivamente em ascensão. Mesmo inserido nesse cenário adverso, o esporte brasileiro alcançou, naquele ciclo, os melhores índices de desempenho olímpico de sua história, resultado direto de governança consistente, visão estratégica e decisões técnicas sustentadas no longo prazo.

É justamente esse legado que hoje permite a Marco La Porta celebrar contratos expressivos com novos patrocinadores. Diante disso, causa estranheza que, em vez de enfrentar o núcleo do problema — a concentração de recursos e a fragilidade estrutural das confederações — o discurso avance por caminhos inflamatórios e soluções de apelo fácil, incapazes de produzir qualquer transformação estrutural.

O que se espera do comando do COB não é retórica populista, mas uma revisão objetiva da distribuição dos recursos públicos e privados arrecadados, acompanhada de maior transparência, critérios técnicos claros e lucidez na forma como esses recursos são transferidos e fiscalizados junto às confederações.

Se o COB deseja, de fato, fortalecer a governança do esporte brasileiro, o caminho não passa apenas por ampliar comissões ou discursos de participação. Passa por rever o modelo de distribuição de recursos, fortalecer estruturalmente as confederações e reconhecer que não há governança possível sem uma base sólida.

O restante é retórica. Ou populismo.

https://www.sicoob.com.br/web/sicoobcentralscrs

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